Doraci Julita Edinger
A Irmã Doraci Julita Edinger nasceu no dia 23 de maio de 1950, no município de Santo Antônio da Patrulha (RS). Filha de Libório e Angelina Edinger numa família com outros 11 irmãos. Ela teve uma educação evangélico-luterana. Na juventude, trabalhou no setor calçadista de Novo Hamburgo, até que decidiu entrar para a vida religiosa. Fez o curso de formação diaconal da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e, em 1980, ingressou na Irmandade da Casa Matriz de Diaconisas, em São Leopoldo , RS. A Irmandade é uma congregação de mulheres que optam livremente pelo serviço religioso. Após ser ordenada diaconisa, irmã Doraci também estudou enfermagem e mais tarde seguiu para Ariquemes na Rondônia, onde trabalhou como missionária e promotora de saúde, e esteve ainda na Amazônia atendendo comunidades indígenas.
O convite para trabalhar em Moçambique – “O grande desafio de minha vida”, como dizia – surgiu em 1998. Doraci foi cedida por sua denominação à Igreja Evangélica Luterana de Moçambique. Trabalhava como missionária brasileira em Nampula, no norte de Moçambique, prestando serviços pastorais e de assistência social junto a comunidades pobres.
A missionária brasileira colaborava na construção de escolas, postos de saúde e na perfuração de poços para abastecimento de água. Morreu no dia 21 de fevereiro de 2004. Doraci foi agredida com golpes de martelo na cabeça.
Uma das hipóteses é que ela tenha sido morta a mando de traficantes internacionais de órgãos humanos. Em relatórios enviados ao Brasil, ela mencionava o aparecimento de corpos mutilados de crianças e se incomodava com a leniência da polícia local em investigar os fatos. Em 2001 escrevia às suas superioras em São Leopoldo que tinha recebido ameaças de morte, mas que "nunca esclareceu os motivos". "A gente precisa de muita criatividade para animar e consolar este povo tão sofrido. Sei que realizei muitas coisas boas, mas podia ter sido melhor e com mais eficácia se não fosse por causa de tantas ameaças”.
Irmã Doraci ajudou as congregações na organização e realização dos cultos, distribuindo material litúrgico, Bíblias, Catecismos. Também animou para a evangelização e formação de novos pontos de pregação e orientou a construção de capelas. Com os responsáveis pelos cultos nas diversas Congregações fazia "treinamento de liturgia". Uma de suas grandes preocupações foi a educação das crianças na fé cristã. Realizou vários Seminários para a formação de Orientadores de Escolas Dominicais. Também realizava encontros com casais que queriam receber a Bênção Matrimonial.
Educação:
Visto que o analfabetismo ainda é muito grande em Moçambique, principalmente entre as mulheres, e que faltam escolas para as crianças, Doraci empenhou-se por melhores condições na área da educação. Incentivou a alfabetização de adultos. Em uma comunidade foi construída uma escola com quatro salas de aula. Foi a realização de um antigo sonho da Irmã Doraci. Com doações vindas do Brasil e investindo do seu próprio salário, Doraci comprou as chapas de zinco, os pregos, o cimento e as tintas, pagou o pedreiro que cimentou as paredes e o chão. Também pagou o serrador que fez as tábuas para as portas e janelas. O Governo oficializou a escola, designando dois professores.
Um outro projeto foi a realização de um curso de fabricação de tijolos, do qual participaram 100 homens e mulheres de sete congregações. Para isso a Irmã Doraci havia contratado especialistas em fabricação de tijolos. É importante saber que no interior, a grande maioria das casas e capelas era construída usando-se apenas postes, barro e capim.
Saúde:
Malária, verminose, feridas, diarréias, anemia e febres são males que afetam a população. Para amenizar a situação, Irmã Doraci incentivava a formação de hortas comunitárias. Ela levava sementes e, se necessário, enxadas e facões. Ela também realizava Seminários de Saúde. Toda esta dedicação da Irmã levou a um crescimento muito grande da Igreja. No início do seu trabalho, em 1998, havia 6 Congregações. Em fins de 2003, o número havia crescido para 28. As pessoas deixam suas crenças primitivas e querem o batismo cristão, porque sentem que são amadas, dizia irmã Doraci.
Um exemplo de amor e abnegação
“Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mc 8.34) A Diaconisa Doraci ouviu e atendeu este chamado de Deus. Ela tomou sobre si a sua cruz e procurou ser fiel a quem a chamou, até a morte. É possível que poucas pessoas sejam tão ousadas no amor a Deus e às pessoas quanto Doraci o foi. Somos gratos pelo testemunho de vida que ela deixou. Já na adolescência, Deus colocou no coração de Doraci o desejo de ajudar pessoas em suas necessidades. Não lhe bastava ser operária numa fábrica de calçados em Novo Hamburgo. Ela desejava colocar-se totalmente a serviço de Deus e dos pequeninos irmãos e irmãs de Jesus. Ao candidatar-se para a formação diaconal, escreve que a sua vida não havia sido fácil, "mas foi bom, porque assim aprendi a me colocar no lugar de outras pessoas que muitas vezes passam pelos mesmos problemas, ou parecidos, e posso sentir a mesma dor que o outro está sentindo".
Fazer a vontade de Deus foi o objetivo que irmã Doraci perseguiu até o fim de sua vida. Uma colega do seu tempo de estudo, hoje diácona, escreveu: "Doraci era um pouco mais velha que eu e, às vezes, eu ficava olhando para ela e pensava: Como uma pessoa pode ter tanta fé”?
Antes de atuar em Moçambique, Irmã Doraci trabalhou em Rondônia, Mato Grosso e Amazonas. Aventurou-se de jipe, andou por trilhas perigosas, para dar apoio aos pequenos agricultores. Cuidou da saúde das pessoas, pois havia muita malária e outras doenças na Região. Doraci mesma teve muitas malárias, - no Brasil e em Moçambique - mas permaneceu firme no seu propósito de ajudar a quem dela precisasse.
A Igreja de Jesus Cristo neste mundo perdeu tragicamente uma fiel servidora. Que o testemunho de vida, que a cruz que Doraci procurou carregar com fidelidade até o seu fim, possa nos desacomodar de nossa inércia. Que possamos tomar a nossa cruz e colocar sinais de amor, de esperança, de paz com justiça, neste mundo tão carente de valores humanos.
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